Em Lisboa, se um táxi entra de lado numa rotunda, há reclamação no livro amarelo. No Quebeque há um que existe só para isso: um BMW M5 V10 em drift, geração E60, pintado de amarelo táxi, luminoso no tejadilho, a desaparecer no próprio fumo. Na mesma época, num parque de estacionamento de Montreal, demos com o oposto: um Lexus IS300 branco, discreto, uma ponteira só, que o dono garante ter mais de 1000 cv. Um grita, o outro sussurra. É a cena do Quebeque em dois carros.
O táxi que só vai de lado: BMW M5 E60 no iCar

Amarelo táxi com faixa aos quadrados, DRIFT TOUR nas portas, faixa preta no capô, jantes brancas de muitos raios, autocolantes de patrocinadores no para-choques e o luminoso no tejadilho. As cores são da Drift Tours, que identificámos na nossa publicação. O trabalho de um táxi de drift é sentar alguém no lugar do pendura e mostrar-lhe como é ir de lado a sério. O palco é a grande placa de betão do iCar, um complexo de desporto motorizado em Mirabel, a norte de Montreal.
O M5 E60, produzido de 2005 a 2010, é a berlina mais desvairada que a BMW alguma vez vendeu. O S85 é um V10 de 5,0 litros com 507 PS e corte acima das 8000 rpm: ideias de Fórmula 1 metidas numa berlina executiva de cinco lugares. Marcámos o vídeo com #s85 e nada do que vimos o desmente, mas não abrimos o capô. Por isso, o motor fica como fama do carro, não como inspeção nossa.
O vídeo, segundo a segundo
O reel tem trinta segundos e junta vários momentos do dia: a meio, o céu passa de nublado a azul limpo. Nos primeiros cinco segundos o táxi vem junto aos rails vermelhos e brancos do lado de lá, já de lado. Aos seis segundos passa por nós de perfil, com fumo a sair dos pneus traseiros. Dos sete aos dezanove, um arco comprido no fundo da placa, junto a uma torre preta e às faixas cor-de-rosa dos patrocinadores. Aos vinte e dois aponta direto à câmara com o volante todo virado, e a partir dos vinte e quatro faz um pião até o fumo engolir o carro inteiro.
Na nossa legenda chamámos-lhe táxi de drift "double V10". Neste vídeo só aparece um M5 amarelo de cada vez, por isso dois não te conseguimos mostrar. O vídeo completo ainda vem aí. Ir de pendura é a melhor maneira de perceber o drift: em Ebisu, um Mark II Grande JZX110 fazia exatamente esse trabalho na nossa reportagem do D1 Grand Prix, e para o drift ao mais alto nível na América do Norte há a Formula DRIFT em Stafford 2026.
O sleeper do Epicure Classics: Lexus IS300 2JZ

Domingo de manhã, encontro do Epicure Classics. O nosso vídeo: catorze segundos, câmara fixa mesmo atrás do carro; só o som se mexe. Na tampa da mala, a inscrição Lexus e o emblema IS 300; os farolins redondos interiores são os de origem; um autocolante Fireball no topo do vidro traseiro e uma moldura BBS à volta da matrícula do Quebeque. Uma ponteira só espreita por baixo do lado direito do para-choques. À volta, o encontro segue: um carro vermelho à esquerda, uma berlina prateada de capô aberto à direita, malta de camisola com capuz junto à vedação e a cobertura de uma bomba de gasolina ao fundo. Bem podia ser um domingo de café à porta da bomba cá, não fosse a matrícula.
Ao ralenti chamámos "choppy", aos soluços. Sobe o volume e percebes porquê.
Porque é que o IS300 já traz 2JZ de fábrica
O IS300 norte-americano, produzido de 2001 a 2005 no chassis XE10, saía de fábrica com o 2JZ-GE: seis cilindros em linha, 3,0 litros, atmosférico, primo do 2JZ-GTE biturbo do Toyota Supra A80. A mesma família, o mesmo bloco de ferro famoso por aguentar tudo, tração traseira. É por isso que em qualquer encontro de preparações na América do Norte "2JZ" e "IS300" aparecem na mesma frase.
O que este tem agora lá dentro, que turbo, que cabeça, não sabemos e não vamos adivinhar. O dono chama-lhe uma preparação "mental" e anuncia mais de 1000 cv. Não o pusemos no banco de potência, por isso o número é dele, não nosso. Para veres o que um 2JZ faz quando alguém leva a coisa à séria, há o Soarer em carbono da AutoBahn com 900 PS.
Conclusão: o Quebeque gosta de extremos
A malta de Montreal não sai só no fim de semana do Grande Prémio, por muito que esse seja outra conversa: os carros do fim de semana de F1 de 2026. No resto do tempo há encontros em parques de estacionamento ao domingo de manhã e uma pista de drift logo a norte, em Mirabel. E os dois carros dizem o mesmo: o carro mais interessante do parque ou é o que parece mais banal, ou o que está pintado de táxi.
Vídeo: One Breath Pictures.


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